Nesse último final de ano, na virada de 2011 para 2012, eu
fui cor-de-rosa. Usei cor-de-rosa em tudo que eu julgava possível, da blusa até
a calcinha, sem deixar passar sombra e elástico de cabelo. Tudo pra mendigar um
pouco de amor que tinha sido negado a mim nos últimos 16 anos (de um
companheiro, claro, nunca me faltou amor de família e meus bons amigos sempre
compensaram o fato de serem poucos). Eu estava desesperada. Não sabia mais que
medida eu poderia tomar só para ganhar um tipo de beijo que durasse mais que
uma noite ou algumas horas apressadas no banheiro masculino do colégio. Eu
faria qualquer coisa. Eu passaria a noite escrevendo em papeizinhos o quanto eu
queria – ou talvez o quanto eu precisasse – que você me amasse. Que me amasse
de volta. Eu me vesti de cor-de-rosa não para um, mas para todos os caras para
quem eu escrevi papeizinhos – ou para quem eu dediquei caixas, cartas, textos
na internet e lágrimas escondidas. Eu só precisava que alguém me amasse de
volta. Só uma vez, só por tempo suficiente para eu poder dizer que eu tive um
relacionamento que durasse mais que uns amassos. Mas nunca aconteceu. Apesar
das minhas súplicas. Apesar dos meus desejos. Apesar dos papeizinhos. Mas
quando eu vesti cor-de-rosa naquele ano novo, pela primeira vez – apesar de eu
só ter percebido isso agora – eu fui correspondida no maior amor do mundo. Eu
comecei a amar a mim mesma. E essa "eu mesma" correspondeu ao meu amor. Foi o
melhor relacionamento que eu já tive. Essa ‘eu mesma’ ama os meus defeitos, tem
paciência comigo na maioria das vezes, apesar de às vezes estourar e querer me
estrangular, ela ainda me ama. Ela me consola, ela me abraça, ela me deixa
confiante. Ninguém nunca me amou como ‘eu mesma’ me ama agora.
De todas as suas qualidades, a maior de todas é que ‘eu
mesma’ não deixa com que eu me apaixone por alguém que não vale a pena por
muito tempo. O mais engraçado, que eu não tinha percebido até agora, é que
depois desse ano novo em que eu vesti só cor-de-rosa, eu nunca mais precisei de
papeizinhos ou de desejos quando vejo horas iguais no relógio do celular. Ela
me deixa sonhar, viajar, planejar, mas só por um tempo limitado. Depois ela me
acorda. E eu ouço ‘eu mesma’ como nunca ouvi alguém antes. Ela fala ‘tudo bem,
ele é bonitinho. Mas espera a outra pra ir embora e mal fala com você na hora da
saída.’, ou ‘tá certo, ele é inteligente e legal, mas te chama no facebook ou
ao menos te responde?’, às vezes: ‘um amor, bebê, mas senta com elas e não com você.’
‘Eu sei que você jura que foram fogos de artifício, mas foi
só uma faísca.’, ‘ele não estava olhando para você, estava olhando para menina
do seu lado.’, ‘aperta suas bochechas e te chama de fofa? Na boa, linda, talvez
isso seja bom sinal em outro planeta, aqui ainda não quer dizer nada.’ No
começo é mesmo difícil de ouvir, eu queria mandar ela calar a boca. Agora eu
dou de ombros e penso ‘Talvez, por enquanto, seja melhor eu só amar eu mesma.’
Ela me deixa amar todo mundo, afinal, sou uma romântica
incorrigível, mas me puxa de volta quando começo a me afogar. É isso que eu
mais gosto nela, ela impõe limites que o meu romantismo deixou de lado.