sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Amor cor-de-rosa


Nesse último final de ano, na virada de 2011 para 2012, eu fui cor-de-rosa. Usei cor-de-rosa em tudo que eu julgava possível, da blusa até a calcinha, sem deixar passar sombra e elástico de cabelo. Tudo pra mendigar um pouco de amor que tinha sido negado a mim nos últimos 16 anos (de um companheiro, claro, nunca me faltou amor de família e meus bons amigos sempre compensaram o fato de serem poucos). Eu estava desesperada. Não sabia mais que medida eu poderia tomar só para ganhar um tipo de beijo que durasse mais que uma noite ou algumas horas apressadas no banheiro masculino do colégio. Eu faria qualquer coisa. Eu passaria a noite escrevendo em papeizinhos o quanto eu queria – ou talvez o quanto eu precisasse – que você me amasse. Que me amasse de volta. Eu me vesti de cor-de-rosa não para um, mas para todos os caras para quem eu escrevi papeizinhos – ou para quem eu dediquei caixas, cartas, textos na internet e lágrimas escondidas. Eu só precisava que alguém me amasse de volta. Só uma vez, só por tempo suficiente para eu poder dizer que eu tive um relacionamento que durasse mais que uns amassos. Mas nunca aconteceu. Apesar das minhas súplicas. Apesar dos meus desejos. Apesar dos papeizinhos. Mas quando eu vesti cor-de-rosa naquele ano novo, pela primeira vez – apesar de eu só ter percebido isso agora – eu fui correspondida no maior amor do mundo. Eu comecei a amar a mim mesma. E essa "eu mesma" correspondeu ao meu amor. Foi o melhor relacionamento que eu já tive. Essa ‘eu mesma’ ama os meus defeitos, tem paciência comigo na maioria das vezes, apesar de às vezes estourar e querer me estrangular, ela ainda me ama. Ela me consola, ela me abraça, ela me deixa confiante. Ninguém nunca me amou como ‘eu mesma’ me ama agora.
De todas as suas qualidades, a maior de todas é que ‘eu mesma’ não deixa com que eu me apaixone por alguém que não vale a pena por muito tempo. O mais engraçado, que eu não tinha percebido até agora, é que depois desse ano novo em que eu vesti só cor-de-rosa, eu nunca mais precisei de papeizinhos ou de desejos quando vejo horas iguais no relógio do celular. Ela me deixa sonhar, viajar, planejar, mas só por um tempo limitado. Depois ela me acorda. E eu ouço ‘eu mesma’ como nunca ouvi alguém antes. Ela fala ‘tudo bem, ele é bonitinho. Mas espera a outra pra ir embora e mal fala com você na hora da saída.’, ou ‘tá certo, ele é inteligente e legal, mas te chama no facebook ou ao menos te responde?’, às vezes: ‘um amor, bebê, mas senta com elas e não com você.’
‘Eu sei que você jura que foram fogos de artifício, mas foi só uma faísca.’, ‘ele não estava olhando para você, estava olhando para menina do seu lado.’, ‘aperta suas bochechas e te chama de fofa? Na boa, linda, talvez isso seja bom sinal em outro planeta, aqui ainda não quer dizer nada.’ No começo é mesmo difícil de ouvir, eu queria mandar ela calar a boca. Agora eu dou de ombros e penso ‘Talvez, por enquanto, seja melhor eu só amar eu mesma.’
Ela me deixa amar todo mundo, afinal, sou uma romântica incorrigível, mas me puxa de volta quando começo a me afogar. É isso que eu mais gosto nela, ela impõe limites que o meu romantismo deixou de lado.