domingo, 15 de julho de 2012

Cheiro de matemática

Você me abraça e é tão bom. Seu abraço tem gosto de vontade de me salvar. Vontade de me fazer feliz. Seu abraço tem forma de proteção. Tem cheiro de tardes de domingo chuvosas e um bom livro velho encontrado em um sebo, mas que ao invés de letras, eu encontro números. Porque mesmo que você seja aquele bom livro velho, mesmo que você seja aquela vontade de ler que me cutuca às quatro horas da manhã em um dia de semana de prova, você não passa de um bando de cálculos. E quem me conhece bem, sabe que eu não sei nada de cálculos. Você é pior que soma e subtração, você é a pura função de segundo grau que eu preciso saber, mas que eu nunca vou usar. Eu queria parar e ler um livro de função de segundo grau, mas só ler o livro não é o suficiente. Você é o tipo de coisa que pede tentativa e erro e que eu me perco na metade do resultado ou que eu erro porque troquei um sinal. Eu queria deitar no seu abraço e só entender o ciclo trigonométrico. Beijar o seu pescoço e descobrir como resolve aquele exercício de logaritmos que eu deixei pra depois porque eu não sabia como fazer. Mas só quem pode resolver você, só quem pode terminar suas contas loucas, só quem pode usar a fórmula certa para aquele exercício confuso daquele dia, que eu não entendi nem o enunciado, é uma pura matemática. E eu não nasci pra fazer matemática. Eu não nasci pra usar fórmulas, eu não nasci pra adicionar, nem subtrai e nem dividir e nem descobrir o cosx². Eu achei que se eu parasse, se eu pensasse muito, se eu lesse o enunciado três mil vezes, se eu soubesse a teoria, eu te resolveria, mas eu não tenho o dom. Então eu não posso decodificar o seu abraço, porque eu não sei nada sobre abraços de gente assim. Se você me pedisse pra ler o seu abraço. Se você me pedisse para escrever sobre seu abraço. Se você me disse para sonhar no seu abraço, eu o faria. Eu juro que o faria sem pensar duas vezes. Porque eu sei tudo sobre esse tipo de abraço e sei tudo sobre o abraço de gente assim. Mas você não me pede isso.
E se eu choro no teu colo, se eu te peço um pouco mais de carinho, se eu te abro um pouco mais do meu coração, nunca é suficiente. Porque o meu coração feito de páginas de livros abertos não é o que você quer. Você quer um coração feito de mais e de menos e eu não posso te dar um coração assim e tudo que eu posso te oferecer além disso é o meu perdão.
Desculpe por não ser mais ou menos o que você queria.
Eu posso te oferecer mil palavras. Mas você não quer nenhuma. Não quer meu aconchego, minhas histórias malucas uma hora da manhã, meu dicionário, minha gramática errônea de quem aspira ser jornalista.
Você me abraça e é tão bom.
Seu abraço cheira à nota dez nas provas da professora de matemática exigente.
Pena que você não pode me salvar.

sábado, 7 de julho de 2012

À minha família americana

No final eu não disse nada. E  mesmo que eu saiba que de verdade eu nunca vou dizer, porque isso aqui vocês nunca lerão, espero que saibam, dentro de vocês, que eu tinha muito mais pra dizer, que eu tive um milhão de palavras entaladas que nem comida mal mastigada na minha garganta. Para começar, eu queria agradecer. É sim, agradecer. Eu sei, eu não me dei bem com nenhum de vocês ai. Mas eu quero agradecer, porque não me dando bem foi que eu percebi que jamais isso aconteceria. Jamais eu poderia me dar bem com pessoas tão pequenas. Eu sou muito pra vocês e só agora eu entendi. Então, desculpe se eu fui muito pra vocês, mas é que eu não posso segurar toda essa parte brilhante de mim. Mas eu tentei, viu? Juro que tentei! Mas nunca seria suficiente. Também queria me desculpar. Desculpa se eu fui uma menina de 17 anos que conseguiu ser mais madura do que uma de 36, porque eu nunca - nem com 14, 17, 20, 50 - NUNCA seria capaz de ameaçar alguém. "Eu tenho fotos horríveis de você, que todo mundo vai ver e que vão te deixar extremamente envergonhada." Você acha que isso é normal? Você acha que falar esse tipo de coisas para uma pessoa quase 20 anos mais jovem do que você FAZEM ALGUM SENTIDO? Mas tudo bem, porque as fotos podiam estar horríveis, só que é você quem ia passar vergonha. Bem, apesar disso, me desculpe se no meu país, nós comprimentamos pessoas com beijos na bochecha. Obrigada também, por dizer que eu sou lésbica. Por dizer que eu vou pro inferno. Por me chamar de aberração. Por dizer que eu só sou vegetariana porque quero chamar atenção. Legal saber que vocês sabem mais de mim do que eu mesma, né? Que mundo estranho. Eu não queria ter todo esse ódio. Eu não queria pesar tanto nisso. Eu não queria quase chorar quando eu penso nesses últimos meses. Mas eu também não queria ter pesadelos, porque essa prisão foi a única coisa com a qual eu sonhei desde que eu voltei. É como se eu não pudesse mais confiar em mim mesma. É como se cada vez que eu fosse pensar sobre mim, eu deixasse a visão de vocês me atrapalhar e só conseguisse pensar em mim mesma como um acidente de trem. Você sabe o que é ter medo de ir dormir, por que sabe que vai sonhar com isso? Por que sabe que não importa o quanto você tente, esses últimos meses sempre vão voltar para assombrar? Mas eu tento rir dessa palhaçada toda. No final, eu sei o que eu fiz e eu sei o que vocês fizeram. Porque se eu tivesse algo para dizer sobre alguém, eu diria na cara delas. Eu não usaria mensagens no facebook, eu não diria pelas costas, eu não "postaria no meu mural" sem ela saber, como vocês fizeram. Eu não chamaria ninguém de aberração. Eu não diria do que elas tem que gostar: se ela gosta de dançar, que dance; se gosta de ler, que leia; se gosta de fazer bolos, que faça bolos. E tem mais: se gosta de mulher, que fique com mulher e se gosta de homem, que fique com homem, porque EU sei que Deus nos fez assim e ele nos amará assim. Mas vocês se acham tão especiais, vocês se acham tão grandes que até sabem o padrão que Deus usa para julgar quem vai ou não para o Paraíso. Oh, perdão poderosíssimos. Eu não acredito em céu e inferno e vocês nunca seriam capazes de aceitar isso, porque para vocês, uma pessoa só pode ser certa se for como vocês. Mesmo que vocês digam o contrário, mesmo que vocês digam que não julgam, que aceitam as pessoas como são, palavras não significam bosta nenhuma. Sabe o que significa alguma coisa? O que você faz.
E vocês não fizeram por merecer.
Ter que ouvir que eu sou preguiçosa, enquanto vocês não sabem ir para UM lugar sem calçada. Ter que ouvir que vocês sabem mais sobre o meu país do que eu mesma só porque vocês tiveram 4 brasileiras na sua casa. Vocês querem o que por isso? Uma salva de palmas? Brasileiros não são todos iguais, americanos não são todos iguais, graças a Deus, porque se fossem, eu não teria trazido amigo nenhum. E o que mais? Eu não preciso postar no facebook 4578541646386 fotos só pra mostrar que eu sou feliz. Vocês repetem para si mesmos, vocês postam no facebook, vocês escrevem na parede que vocês são felizes porque parece que vocês precisam se convencer disso. A felicidade de vocês nunca chegará aos pés da minha. A minha felicidade é autêntica, verdadeira e além disso, ela é minha!
Sabe o que eu quero que vocês saibam? Que vocês podem ficar com tudo, porque nada disso significa alguma coisa para mim.
Vocês só não podem ficar comigo ;)
Estou de volta ao lugar que eu pertenço e desejo para vocês tudo em dobro do que vocês desejarem para mim. E sinceramente, porque eu não preciso falsificar meus sentimentos, muito bem, obrigada.
"Entre outras mil, és tu Brasil, óh pátria amada!"