Você me abraça e é tão bom. Seu abraço tem gosto de vontade de me salvar. Vontade de me fazer feliz. Seu abraço tem forma de proteção. Tem cheiro de tardes de domingo chuvosas e um bom livro velho encontrado em um sebo, mas que ao invés de letras, eu encontro números. Porque mesmo que você seja aquele bom livro velho, mesmo que você seja aquela vontade de ler que me cutuca às quatro horas da manhã em um dia de semana de prova, você não passa de um bando de cálculos. E quem me conhece bem, sabe que eu não sei nada de cálculos. Você é pior que soma e subtração, você é a pura função de segundo grau que eu preciso saber, mas que eu nunca vou usar. Eu queria parar e ler um livro de função de segundo grau, mas só ler o livro não é o suficiente. Você é o tipo de coisa que pede tentativa e erro e que eu me perco na metade do resultado ou que eu erro porque troquei um sinal. Eu queria deitar no seu abraço e só entender o ciclo trigonométrico. Beijar o seu pescoço e descobrir como resolve aquele exercício de logaritmos que eu deixei pra depois porque eu não sabia como fazer. Mas só quem pode resolver você, só quem pode terminar suas contas loucas, só quem pode usar a fórmula certa para aquele exercício confuso daquele dia, que eu não entendi nem o enunciado, é uma pura matemática. E eu não nasci pra fazer matemática. Eu não nasci pra usar fórmulas, eu não nasci pra adicionar, nem subtrai e nem dividir e nem descobrir o cosx². Eu achei que se eu parasse, se eu pensasse muito, se eu lesse o enunciado três mil vezes, se eu soubesse a teoria, eu te resolveria, mas eu não tenho o dom. Então eu não posso decodificar o seu abraço, porque eu não sei nada sobre abraços de gente assim. Se você me pedisse pra ler o seu abraço. Se você me pedisse para escrever sobre seu abraço. Se você me disse para sonhar no seu abraço, eu o faria. Eu juro que o faria sem pensar duas vezes. Porque eu sei tudo sobre esse tipo de abraço e sei tudo sobre o abraço de gente assim. Mas você não me pede isso.
E se eu choro no teu colo, se eu te peço um pouco mais de carinho, se eu te abro um pouco mais do meu coração, nunca é suficiente. Porque o meu coração feito de páginas de livros abertos não é o que você quer. Você quer um coração feito de mais e de menos e eu não posso te dar um coração assim e tudo que eu posso te oferecer além disso é o meu perdão.
Desculpe por não ser mais ou menos o que você queria.
Eu posso te oferecer mil palavras. Mas você não quer nenhuma. Não quer meu aconchego, minhas histórias malucas uma hora da manhã, meu dicionário, minha gramática errônea de quem aspira ser jornalista.
Você me abraça e é tão bom.
Seu abraço cheira à nota dez nas provas da professora de matemática exigente.
Pena que você não pode me salvar.
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